Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Goethe’

Werther

goetheWerther é o ícone supremo do romantismo. Vez por outra me pego lendo trechos para lembrar tempos em que as paixões mal-sucedidas nos faziam querer morrer.

O romantismo faz uso da natureza como representação de um estado íntimo. A natureza e seus estados são um referencial comum para os sentimentos humanos. Não é à toa que Werther começa sua carta de 10 de maio com “Minha alma inunda-se de uma serenidade maravilhosa, harmonizando-se com a das doces manhãs primaveris que procuro usufruir com tôdas as minhas forças.”

Todos sentimos o que seja a serenidade maravilhosa das manhãs primaveris. E por sentir, nos identificamos com Werther. Daí a grandiosidade de Goethe. Daí a grandiosidade da natureza em ser capaz de nos mostrar o caminho para recuperar algo que já perdemos.

Werther continua descrevendo, por meio da natureza, seu estado de alma:

Estou só e abandono-me à alegria de viver nesta região criada para as almas iguais à minha. Sou tão feliz, meu amigo, e de tal modo mergulhado no tranqüilo sentimento da minha própria existência, que esqueci a minha arte. Neste momento, ser-me-ia impossível desenhar a coisa mais simples; e, no entanto, nunca fui tão grande pintor. Quando em torno de mim os vapôres se elevam do meu vale querido, e o sol a pino procura devassar a impenetrável penumbra da minha floresta, mas apenas alguns dos seus raios conseguem insinuar-se no fundo dêste santuário; quando, à beira da cascata, ocultas sob os arbustos, descubro rente ao chão mil diferentes espécies de plantazinhas; quanto sinto mais perto do meu coração o formigar de um pequeno universo escondido embaixo das ervinhas, e são os insetos, moscardos de formas inumeráveis cuja variedade desafia o observador…

O que faz Werther ser o que é, é ser a exata descrição da realidade vista e vivida por Goethe (com exceção do final, claro). Talvez hoje, quem sabe, ele não seria capaz de escrever algo parecido. Não por falta de genialidade, ou por não mais existir o romantismo, mas por falta das “Mil diferentes espécies de plantazinhas…  um pequeno universo escondido embaixo das ervinhas, e são os insetos, moscardos de formas inumeráveis cuja variedade desafia o observador.

Uma pena. Goethe, já em 1774, bem poderia ter sido o precursor do moderno conceito de biodiversidade. Mas há mais em Werther…

Obs: a grafia foi mantida conforme a edição do livro publicado na coleção “Os Imortais da Literatura Universal”, Abril Cultural, 1ª edição, 1971.
Imagem: Goethe, de Johann Heinrich Wilhelm Tischbein. Daqui.

Read Full Post »