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Pois é,

Livros impressionam. Deixam marcas definitivas. O Senhor dos Anéis foi um deles. Muito antes de virar moda, pela trilogia cinematográfica. Tenho a primeira edição brasileira, de 1979, que li em 1982. Bem antes, como disse, de virar “cult”. Na época, foi a primeira vez que tomei contato com a palavra modorrento. Um ambiente modorrento, era o que descrevia Tolkien em certa passagem, no início da maravilhosa aventura dos Hobbits.

Mas não é sobre a Terra-Média, sobre o Condado ou Mordor – um mundo que era vivo – que pretendo escrever. Esse guardo para outros posts. Aproveito o dia mundial da água para escrever sobre outra obra que deixou marcas indeléveis. Uma obra que bem pode ser profética; que fala de um mundo que poderá ser a Terra daqui a não muitas gerações: Arrakis. Ou, DUNA!

Frank Herbert (“detentor dos prêmios Nébula e Hugo, os mais importantes da categoria ficção científica nos Estados Unidos1), em Duna, “narra a história de um estranho planeta que, em meio a intrigas políticas e religiosas, se defronta com problemas ecológicos provocados pela escassez de água em sua superfície.2. (negrito meu)

O livro foi escrito em 1965, quando a humanidade ainda engatinhava na preocupação com as questões de preservação do meio ambiente (uns poucos, a bem da verdade, já se preocupavam muito com essa questão, tanto que, sete anos após, aconteceu a Conferência de Estocolmo).

Há, já no início da história, um claro contraste entre o mundo de origem de Paul Atreides (Muad’Dib – personagem principal do livro), Caladan – um mundo como a nossa Terra, com oceanos e água abundante – e Arrakis, um mundo deserto, sem água, povoado por gente estranha que aguarda a vinda do messias. Mas não qualquer messias; não um messias que trará a vida plena no céu, mas um messias que trará a água de volta para Duna.

Os Fremen.

– Já chegou a ver os Fremen?

– É como se não os tivesse visto. Há muito pouca coisa que os distinga do resto do povo mais pobre. Todos usam aqueles mantos longos e fedem horrivelmente em qualquer espaço fechado. É por causa daqueles trajes que vestem. Chamam-nos trajes destiladores, que recuperam a água eliminada pelo corpo.

Paul engoliu em seco, percebendo subitamente a umidade em sua boca, lembrando-se de ter sonhado com sede. Que pessoas pudessem ter tanta necessidade de água a ponto de reciclarem a própria umidade de seus corpos produzia nele um sentimento de tristeza. – A água é preciosa lá – disse.

Autores de ficção científica têm o dom de “prever” o futuro. Muitos erram, mas muitos acertam…Tristeza dá em imaginar que precisaremos de trajes especiais…

David Lynch, em 1984, tranformou Duna em filme. Só posso dizer que não teria feito de outra forma. Segue um trecho do filme onde o contraste entre Caladan e Arrakis é patente:

Na seqüência: Duna – II.

Fonte: 1 e 2: contracapa da edição da Nova Fronteira, 1984.
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Por vezes esquecemos onde e quando tudo começou. A arte nem sempre é feita apenas para satisfação do autor. Serve, também, para registro histórico de épocas das quais não lembramos ou sequer conhecemos. É Rugendas quem nos lembra que o problema do desmatamento não é recente:

Johann Moritz Rugendas (Augsburg, Alemanha 1802 – Weilheim, Alemanha 1858). Pintor, desenhista, gravador. Desde criança, exercita o desenho e a gravura com o pai Johann Lorenz Rugendas II (1775 – 1826). Freqüenta o ateliê de Albrecht Adam (1786 – 1862), de 1815 até 1817, quando ingressa na Academia de Belas Artes de Munique. Incentivado pelos relatos de viagem dos naturalistas J. B. von Spix (1781 – 1826) e C. Fr. Ph. de Martius (1794 – 1868) e pela obra de Thomas Ender (1793 – 1875), vem para o Brasil em 1821, como desenhista documentarista da Expedição Langsdorff. Abandona a expedição em 1824, mas continua sozinho o registro de tipos, costumes, paisagens, fauna e flora brasileiros. Segue para Mato Grosso, Bahia e Espírito Santo e retorna ao Rio de Janeiro ainda no mesmo ano. Rugendas não realiza nenhuma pintura a óleo em sua primeira estada no Brasil, privilegia o desenho e ocasionalmente o colore à aquarela. De 1825 a 1828 vive entre Paris, Augsburg e Munique. Nesse período, dedica-se à publicação de sua obra Voyage Pittoresque dans le Brésil. Vai para a Itália em 1828, onde observa novas técnicas. O uso de cores e o esboço a óleo chamam sua atenção. Motivado pelo naturalista Alexander Humboldt (1769 – 1859), Rugendas viaja para o México em 1831, com projeto de viagem pela América com objetivo de reunir material para nova publicação. No México, começa a pintar a óleo, utilizando as técnicas assimiladas na Itália. A partir de 1834, excursiona pela América do Sul, passa pelo Chile, Argentina, Peru e Bolívia. Em 1845, chega ao Rio de Janeiro, onde retrata membros da família imperial e é convidado a participar da Exposição Geral de Belas Artes. No ano seguinte, parte definitivamente para a Europa. Em troca de uma pensão anual e vitalícia, cede sua coleção de desenhos e aquarelas ao Rei Maximiliano II, da Baviera.” (daqui)

A pintura acima chama-se “Desmatamento” e foi feita por Rugendas em 1821. (daqui) Retrata o início da devastação da Mata Atlântica.

Este blog é fruto de uma idéia que me ocorreu quando foram publicadas duas crônicas minhas, sobre meio ambiente, na Germina, Revista de Literatura e Arte, editada por Mariza Lourenço e Silvana Guimarães. Por sinal, é culpa da Mariza, pois submeti a idéia e ela aprovou.

O objetivo é comentar (sequer diria analisar, pois isso requereria perícia, coisa que não tenho) sobre como os autores de literatura e artes em geral descrevem o meio ambiente em suas obras. Não há periodicidade deefinida. Assim que, assinem o feed.

E pra começar, nada como recordar um ícone da reunião de meio ambiente com literatura, a Canção do Exílio, de Gonçalves Dias:

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá.
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda encontre as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Se alguém quiser colaborar e escrever sobre o tema, por favor entre em contato comigo: luizafonsoe@gmail.com.