Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Frank Herbert’ Category

Duna – II

Frank Herbert tem sido considerado o primeiro escritor de ficção científica a considerar o tema
ecologia em suas obras. A par das questões políticas, econômicas e religiosas que servem de pano de fundo da história, a ecologia pode ser considerada, talvez numa leitura mais atual (não esqueçamos que Duna retrata uma época do nosso mundo onde as questões políticas – guerra fria -, econômicas – OPEP1 e petróleo – e religiosas – Concílio Vaticano 2º – dominavam inteiramente o espaço público mundial) o ponto central da obra.

O primeiro dos apêndices trata justamente da “Ecologia de Arrakis”. Abrindo o capítulo, lemos uma citação (tomada como se fosse de uma das personagens) que é quase a questão central da atual problemática envolvendo o meio ambiente e os seres humanos:

Além de um ponto crítico dentro de um espaço finito, a liberdade diminui à medida que os números crescem. Isso é verdadeiro para os seres humanos no espaço finito de um ecossistema planetário, assim como o é com relação as moléculas de um gás num frasco selado. A questão humana não é tanto quantos poderão sobreviver dentro do sistema, mas sim que tipo de existência será possível para aqueles que sobreviverem.

Somente agora, 40 anos passados, começamos a nos preocupar com “que tipo de existência será possível para aqueles que sobreviverem”. A manter-se o atual ritmo de crescimento da população mundial, necessariamente a liberdade irá diminuir e, mesmo que não tenhamos “sobreviventes” – no sentido de gente que sobrou de alguma catástrofe ambiental – a qualidade de vida irá piorar.

A pergunta central é: que tipo de existência queremos ter? E que gostaríamos que nossos descendentes tivessem? A resposta vai além do atual conceito de “sustentabilidade” – ser ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito – (e, por certo, muito além do tradicional conceito de “desenvolvimento sustentável”), pois, por exemplo, será socialmente justo estabelecer programas de controle da natalidade sem ferir a liberdade das pessoas em querer ter filhos?

Uma economia, nos moldes da que temos hoje em dia, para ser viável precisa de consumidores: quanto mais crianças, mais fraldas, mais…. e depois, quanto mais adolescentes, mais tênis, mais… e depois, quanto mais adultos, mais cigarros, etc… De outra forma, ser economicamente viável dentro do atual modelo, contraria todos os demais fatores que definem a sustentabilidade. Como resolver o conflito, quando sabemos que a economia é a base de tudo? Não haverá sociedade justa, cultura aceita e, menos ainda, ecologia correta, com esse modelo de economia.

Estamos nos aproximando perigosamente do limite. E não vemos mostras de que mudaremos nossa economia… A literatura já nos avisava disso há 40 anos…

1É o próprio Frank Herbert quem diz, nesse ensaio (em inglês), que a CHOAM é a OPEP. O ensaio, titulado “Dune Genesis”, é muito interessante para quem quiser saber como nasce uma obra literária. Duna, no caso.

otografia de Frank Herbert lincada do site oficial de Duna. O desenho, também do site, faz parte da galeria do artista Wojciech Siudmak.

Anúncios

Read Full Post »

Duna – I

Pois é,

Livros impressionam. Deixam marcas definitivas. O Senhor dos Anéis foi um deles. Muito antes de virar moda, pela trilogia cinematográfica. Tenho a primeira edição brasileira, de 1979, que li em 1982. Bem antes, como disse, de virar “cult”. Na época, foi a primeira vez que tomei contato com a palavra modorrento. Um ambiente modorrento, era o que descrevia Tolkien em certa passagem, no início da maravilhosa aventura dos Hobbits.

Mas não é sobre a Terra-Média, sobre o Condado ou Mordor – um mundo que era vivo – que pretendo escrever. Esse guardo para outros posts. Aproveito o dia mundial da água para escrever sobre outra obra que deixou marcas indeléveis. Uma obra que bem pode ser profética; que fala de um mundo que poderá ser a Terra daqui a não muitas gerações: Arrakis. Ou, DUNA!

Frank Herbert (“detentor dos prêmios Nébula e Hugo, os mais importantes da categoria ficção científica nos Estados Unidos1), em Duna, “narra a história de um estranho planeta que, em meio a intrigas políticas e religiosas, se defronta com problemas ecológicos provocados pela escassez de água em sua superfície.2. (negrito meu)

O livro foi escrito em 1965, quando a humanidade ainda engatinhava na preocupação com as questões de preservação do meio ambiente (uns poucos, a bem da verdade, já se preocupavam muito com essa questão, tanto que, sete anos após, aconteceu a Conferência de Estocolmo).

Há, já no início da história, um claro contraste entre o mundo de origem de Paul Atreides (Muad’Dib – personagem principal do livro), Caladan – um mundo como a nossa Terra, com oceanos e água abundante – e Arrakis, um mundo deserto, sem água, povoado por gente estranha que aguarda a vinda do messias. Mas não qualquer messias; não um messias que trará a vida plena no céu, mas um messias que trará a água de volta para Duna.

Os Fremen.

– Já chegou a ver os Fremen?

– É como se não os tivesse visto. Há muito pouca coisa que os distinga do resto do povo mais pobre. Todos usam aqueles mantos longos e fedem horrivelmente em qualquer espaço fechado. É por causa daqueles trajes que vestem. Chamam-nos trajes destiladores, que recuperam a água eliminada pelo corpo.

Paul engoliu em seco, percebendo subitamente a umidade em sua boca, lembrando-se de ter sonhado com sede. Que pessoas pudessem ter tanta necessidade de água a ponto de reciclarem a própria umidade de seus corpos produzia nele um sentimento de tristeza. – A água é preciosa lá – disse.

Autores de ficção científica têm o dom de “prever” o futuro. Muitos erram, mas muitos acertam…Tristeza dá em imaginar que precisaremos de trajes especiais…

David Lynch, em 1984, tranformou Duna em filme. Só posso dizer que não teria feito de outra forma. Segue um trecho do filme onde o contraste entre Caladan e Arrakis é patente:

Na seqüência: Duna – II.

Fonte: 1 e 2: contracapa da edição da Nova Fronteira, 1984.

Read Full Post »