Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Fernando Pessoa’ Category

Fernando Pessoa dispensa apresentações. Se vivo estivesse, certamente teria vários blogs, um para cada um de seus heterônimos. A cena, por ele mesmo descrita em carta a Adolfo Casais Monteiro, seria bastante diferente: “acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso“. Um pouco incômodo digiatar poesias em pé, frente a um computador. Ou talvez não, para quem, como ele, conseguia incorporar vidas diferentes.

O fato é que, nessa carta, ele descreve como nasceu Alberto Caeiro, um “ambientalista”, mas não um ambientalista preocupado com a conservação do meio ambiente e, sim, um poeta que apenas sente a natureza. E desse sentir nasce o que nos falta: o sentimento de pertença.

Relata Pessoa na carta:

Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive.

O Guardador de Rebanhos é um conjunto de 39 poemas, escritos entre 1912 e 1914. Vai render diversos posts mas, por hora, fico com um que bem espelha essa sensação de simpesmente “ser” junto com a natureza. Quem sente assim jamais destruiria a natureza, pois estaria destruindo a si mesmo.

Rios são algo muito particular na vida das pessoas. Ao menos eram, quando não estavam poluídos. Quando era criança e nadava no Guaíba (mais tarde elevado a categoria de “Lago”), tinha a mesma sensação que Caeiro. Era o rio da minha aldeia. Hoje, já não posso dizer que O rio da minha aldeia não faz pensar em nada, pois faz pensar em quão poluído está e em que não poderei levar minha filha para tomar banho nele, como meu pai me levava.

É isso que estão fazendo conosco: todos os meus antepassados (desde o primeiro, lá por volta dos 1600), nadaram nos rios das suas aldeias. Eu nadei. Minha filha não nadará; seus filhos e netos, a continuar assim, talvez sequer conheçam um rio. É bom reler Caeiro:

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. (…)
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe disso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio de minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se ao Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.”

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Esse post foi uma sugestão da Clarrissa Ramos, xará da minha Condessa.

Anúncios

Read Full Post »