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Archive for abril \13\UTC 2008

Fernando Pessoa dispensa apresentações. Se vivo estivesse, certamente teria vários blogs, um para cada um de seus heterônimos. A cena, por ele mesmo descrita em carta a Adolfo Casais Monteiro, seria bastante diferente: “acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso“. Um pouco incômodo digiatar poesias em pé, frente a um computador. Ou talvez não, para quem, como ele, conseguia incorporar vidas diferentes.

O fato é que, nessa carta, ele descreve como nasceu Alberto Caeiro, um “ambientalista”, mas não um ambientalista preocupado com a conservação do meio ambiente e, sim, um poeta que apenas sente a natureza. E desse sentir nasce o que nos falta: o sentimento de pertença.

Relata Pessoa na carta:

Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive.

O Guardador de Rebanhos é um conjunto de 39 poemas, escritos entre 1912 e 1914. Vai render diversos posts mas, por hora, fico com um que bem espelha essa sensação de simpesmente “ser” junto com a natureza. Quem sente assim jamais destruiria a natureza, pois estaria destruindo a si mesmo.

Rios são algo muito particular na vida das pessoas. Ao menos eram, quando não estavam poluídos. Quando era criança e nadava no Guaíba (mais tarde elevado a categoria de “Lago”), tinha a mesma sensação que Caeiro. Era o rio da minha aldeia. Hoje, já não posso dizer que O rio da minha aldeia não faz pensar em nada, pois faz pensar em quão poluído está e em que não poderei levar minha filha para tomar banho nele, como meu pai me levava.

É isso que estão fazendo conosco: todos os meus antepassados (desde o primeiro, lá por volta dos 1600), nadaram nos rios das suas aldeias. Eu nadei. Minha filha não nadará; seus filhos e netos, a continuar assim, talvez sequer conheçam um rio. É bom reler Caeiro:

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. (…)
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe disso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio de minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se ao Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.”

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Esse post foi uma sugestão da Clarrissa Ramos, xará da minha Condessa.

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A Floresta

Vinícius de Moraes, o poetinha, é mais conhecido por suas letras e músicas. No dizer de Wilson Martins, em texto para o “Jornal de Poesia“, “Em termos estritamente literários e até biográficos, sua carreira foi, de certo modo, invertida, passando pelas mutações assinaladas por José Castello: de poeta para músico popular, e de músico popular para showman, num plano inclinado de conseqüências perversas. A popularidade do último período, no bom e no mau sentido da palavra, obliterou por completo o poeta e sua obra, concentrando o interesse e respectiva celebridade nas atividades efêmeras do espetáculo“.

Pois é na fase “poeta”, ainda jovem, que publica, em 1933, seu primeiro livro, O Caminho para a Distância. Nele encontra-se o poema A Floresta, onde Vinícius descreve, em meio a tantas impressões de uma natureza exuberante, algo que talvez muitos hoje em dia não conheçam: “um gosto saboroso / De folha verde e nova e seiva bruta“.

A floresta

Sobre o dorso possante do cavalo
Banhado pela luz do sol nascente
Eu penetrei o atalho, na floresta.
Tudo era força ali, tudo era força
Força ascencional da natureza.
A luz que em torvelinhos despenhava
Sobre a coma verdíssima da mata
Pelos claros das árvores entrava
E desenhava a terra de arabescos.
Na vertigem suprema do galope
Pelos ouvidos, doces, perpassavam
Cantos selvagens de aves indolentes.
A branda aragem que do azul descia
E nas folhas das árvores brincava
Trazia à boca um gosto saboroso
De folha verde e nova e seiva bruta.
Vertiginosamente eu caminhava
Bêbado da frescura da montanha
Bebendo o ar estranguladamente.
Às vezes, a mão firme apaziguava
O impulso ardente do animal fogoso
Para ouvir de mais perto o canto suave
De alguma ave de plumagem rica
E após, soltando as rédeas ao cavalo
Ia de novo loucamente à brisa.

De repente parei. Longe, bem longe
Um ruído indeciso, informe ainda
Vinha às vezes, trazido pelo vento.
Apenas branda aragem perpassava
E pelo azul do céu, nenhuma nuvem.
Que seria? De novo caminhando
Mais distinto escutava o estranho ruído
Como que o ronco baixo e surdo e cavo
De um gigante de lenda adormecido.

A cachoeira, Senhor! A cachoeira!
Era ela. Meu Deus, que majestade!
Desmontei. Sobre a borda da montanha
Vendo a água lançando-se em peitadas
Em contorsões, em doidos torvelinhos
Sobre o rio dormente e marulhoso
Eu tive a estranha sensação da morte.

Em cima o rio vinha espumejante
Apertando entre as pedras pardacentas
Rápido e se sacudindo em branca espuma.
De repente era o vácuo embaixo, o nada
A queda célere e desamparada
A vertigem do abismo, o horror supremo
A água caindo, apavorada, cega
Como querendo se agarrar nas pedras
Mas caindo, caindo, na voragem
E toda se estilhaçando, espumecente.

Lá fiquei longo tempo sobre a rocha
Ouvindo o grande grito que subia
Cheio, eu também, de gritos interiores.
Lá fiquei, só Deus sabe quanto tempo
Sufocando no peito o sofrimento
Caudal de dor atroz e inapagável
Bem mais forte e selvagem do que a outra.
Feita ela toda de esperança
De não poder sentir a natureza
Com o espírito em Deus que a fez tão bela.

Quando voltei, já vinha o sol mais alto
E alta vinha a tristeza no meu peito.
Eu caminhei. De novo veio o vento
Os pássaros cantaram novamente
De novo o aroma rude da floresta
De novo o vento. Mas eu nada via.
Eu era um ser qualquer que ali andava
Que vinha para o ponto de onde viera
Sem sentido, sem luz, sem esperança
Sobre o dorso cansado de um cavalo.

Imagens e poema copiados do site oficial de Vinícius de Moraes, que vale a visita.

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