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O jurista Agostinho Marques Perdigão Malheiro nasceu na cidade de Campanha, na província de Minas Gerais, em 1824, falecendo no Rio de Janeiro em 1881. Foi membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e Presidente Honorário da Ordem dos Advogados Brasileiros, Procurador dos Feitos da Fazenda Nacional, curador de africanos livres, entre outras funções. Presenciando, na decáda dos 60 a Guerra doParaguai e a Guerra Civil norte americana, Perdigão Malheiro escreveu, entre 1864 e 1867, os três volumes do seu mais importante livro – A Escravidão no Brasil: ensaio histórico, jurídico, social. Publicado pela Imprensa Nacional, sob a proteção do Imperador D. Pedro II, o último volume saiu do prelo em 1867, um ano antes da queda do ministério liberal de Zacarias de Góis. Em 1868, com a subida do Gabinete conservador comandado pelo Visconde de Itaboraí, as reformas referentes à escravidão são paralisadas. O livro de Perdigão Malheiro se destaca por influenciar enormemente os debates acerca das reformas na instituição escravocrata que estavam ocorrendo no último quartel do século XIX.. Todos os pontos relativos à escravidão são analisados pelo jurista mineiro, sendo suas análises debatidas a fundo por intelectuais e políticos do seu tempo.

Era filho do Ministro do Supremo Tribunal Federal, ao tempo do Império, Agostinho Marques Perdigão Malheiro.

Para se ter uma idéia, a 1ª edição de “A Escravidão no Brasil” está sendo vendida, pela Estante Virtual, por R$ 1500,00.

Em 1850 escreveu o seguinte livro

livro1850

Um livro interessante para quem quer ler sobre a história do Brasil. Nele, Agostinho dedica um capítulo para descrever a “Riqueza Natural” do paiz:

He proverbial a riqueza do Brazil em todos os reinos da natureza. Em huma extensão immensa de costa banhada pelo Atlantico são os seus mares abundantissimos da mais variada pesca desde a rainha do Oceano, a balêa, até os mais insignificantes peixes: assim como são tambem summamente piscosos os seus rios, em alguns dos quaes abundão tartarugas. Em terra ha a mais variada profusão de todos os animaes desde o tigre temivel até o mimoso saguim, desde o condôr-rei até o delicado beija-flôr. As suas mattas immensas fornecem toda a sorte de madeiras de construcção, de tinturaria, de marceneria, &c: e além disto o reino vegetal offerece tudo quanto he indispensavel á vida quer para vestuario e alimento, quer para restabelecimento da saude. No reino mineral temos ouro, de que se torna digna de menção a mina de Congo-Socco na Provincia de Minas Geraes, pertencente a huma companhia ingleza que della tem extrahido milhões e milhões de libras deste metal; diamantes, de que n’outro tempo se extrahio quantidade enorme nesta mesma Provincia; amethystas e outras pedras preciosas; ferro, de que existe uma mina abundantissima, e fabrica em S. João de Ipanema na Provincia de S. Paulo: tambem consta que existem minas de carvão de pedra, sobretudo na Provincia de Santa Catharina; assim como de cobre, chumbo, marmore, e outros mineraes em varias Provincias.

Si quizessemos enumerar todos os objectos que compõe a riqueza, de que a natureza com prodiga mão adornou o nosso paiz, e especificar as Provincias e localidades em que elles mais abundão, seria preciso escrever volumes. Contentemo-nos pois com o que temos dito, ficando certos de que não ha paiz no mundo mais rico em todos os reinos.

Accresce que o Brazil pela sua posição geographica, e astronomica offerece elementos de grandeza e prosperidade que assombrão: terreno o mais fertil possivel; variedade de climas; rios por toda parte capazes de navegação, mesmo para barcos de mais alto bordo, até o interior; e mil outras circumstancias todas favoraveis.

Si a Providencia dotou o nosso paiz com tantos e tão poderosos elementos de riqueza, e grandeza, não foi certamente sem hum fim. E si pelos meios é facil chegar a comprehender-se o fim, devemos confessar que Deos mesmo destina o Brazil a ser hum dia talvez a primeira Nação do Mundo.

Passados mais de 150 anos, sequer chegamos perto de ser a “primeira Nação do Mundo”, mas conseguimos transformar para pior a “proverbial riqueza da natureza” que ele descreve.

Incrível a nossa capacidade…

goetheWerther é o ícone supremo do romantismo. Vez por outra me pego lendo trechos para lembrar tempos em que as paixões mal-sucedidas nos faziam querer morrer.

O romantismo faz uso da natureza como representação de um estado íntimo. A natureza e seus estados são um referencial comum para os sentimentos humanos. Não é à toa que Werther começa sua carta de 10 de maio com “Minha alma inunda-se de uma serenidade maravilhosa, harmonizando-se com a das doces manhãs primaveris que procuro usufruir com tôdas as minhas forças.”

Todos sentimos o que seja a serenidade maravilhosa das manhãs primaveris. E por sentir, nos identificamos com Werther. Daí a grandiosidade de Goethe. Daí a grandiosidade da natureza em ser capaz de nos mostrar o caminho para recuperar algo que já perdemos.

Werther continua descrevendo, por meio da natureza, seu estado de alma:

Estou só e abandono-me à alegria de viver nesta região criada para as almas iguais à minha. Sou tão feliz, meu amigo, e de tal modo mergulhado no tranqüilo sentimento da minha própria existência, que esqueci a minha arte. Neste momento, ser-me-ia impossível desenhar a coisa mais simples; e, no entanto, nunca fui tão grande pintor. Quando em torno de mim os vapôres se elevam do meu vale querido, e o sol a pino procura devassar a impenetrável penumbra da minha floresta, mas apenas alguns dos seus raios conseguem insinuar-se no fundo dêste santuário; quando, à beira da cascata, ocultas sob os arbustos, descubro rente ao chão mil diferentes espécies de plantazinhas; quanto sinto mais perto do meu coração o formigar de um pequeno universo escondido embaixo das ervinhas, e são os insetos, moscardos de formas inumeráveis cuja variedade desafia o observador…

O que faz Werther ser o que é, é ser a exata descrição da realidade vista e vivida por Goethe (com exceção do final, claro). Talvez hoje, quem sabe, ele não seria capaz de escrever algo parecido. Não por falta de genialidade, ou por não mais existir o romantismo, mas por falta das “Mil diferentes espécies de plantazinhas…  um pequeno universo escondido embaixo das ervinhas, e são os insetos, moscardos de formas inumeráveis cuja variedade desafia o observador.

Uma pena. Goethe, já em 1774, bem poderia ter sido o precursor do moderno conceito de biodiversidade. Mas há mais em Werther…

Obs: a grafia foi mantida conforme a edição do livro publicado na coleção “Os Imortais da Literatura Universal”, Abril Cultural, 1ª edição, 1971.
Imagem: Goethe, de Johann Heinrich Wilhelm Tischbein. Daqui.

Um verdadeiro hino à natureza essa música cantada por Louis Armstrong, apesar de ter sido escrita por Bob Thiele e George David Weiss  para outro fim (Wikipédia).

Uma prova de que Arte e Natureza andam juntas!

What a wonderful world!

I see trees of green,

arvore

red roses too

I see them bloom, for me and you,

rosas

And I think to myself, What a wonderful world.

cisnes

I see skies of blue and clouds of white,

ceu

The bright blessed day,

luzes_23

the dark sacred night,

noite

And I think to myself, what a wonderful world

cascata

The colors of the rainbow, so pretty in the sky

Are also on the faces of people goin’ by

double-rainbow

I see friends shaking hands, saying, “How do you do?”

They’re really saying, “I love you.”

apertodemao11

I hear babies cry,

choro

I watch them grow

baby1

They’ll learn much more than I’ll ever know,

10103550

And I think to myself what a wonderful world

terra-eps

Yes I think to myself, what a wonderful world.

terra1

As imagens estão lincadas aos endereços de onde foram copiadas.

Fernando Pessoa dispensa apresentações. Se vivo estivesse, certamente teria vários blogs, um para cada um de seus heterônimos. A cena, por ele mesmo descrita em carta a Adolfo Casais Monteiro, seria bastante diferente: “acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso“. Um pouco incômodo digiatar poesias em pé, frente a um computador. Ou talvez não, para quem, como ele, conseguia incorporar vidas diferentes.

O fato é que, nessa carta, ele descreve como nasceu Alberto Caeiro, um “ambientalista”, mas não um ambientalista preocupado com a conservação do meio ambiente e, sim, um poeta que apenas sente a natureza. E desse sentir nasce o que nos falta: o sentimento de pertença.

Relata Pessoa na carta:

Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive.

O Guardador de Rebanhos é um conjunto de 39 poemas, escritos entre 1912 e 1914. Vai render diversos posts mas, por hora, fico com um que bem espelha essa sensação de simpesmente “ser” junto com a natureza. Quem sente assim jamais destruiria a natureza, pois estaria destruindo a si mesmo.

Rios são algo muito particular na vida das pessoas. Ao menos eram, quando não estavam poluídos. Quando era criança e nadava no Guaíba (mais tarde elevado a categoria de “Lago”), tinha a mesma sensação que Caeiro. Era o rio da minha aldeia. Hoje, já não posso dizer que O rio da minha aldeia não faz pensar em nada, pois faz pensar em quão poluído está e em que não poderei levar minha filha para tomar banho nele, como meu pai me levava.

É isso que estão fazendo conosco: todos os meus antepassados (desde o primeiro, lá por volta dos 1600), nadaram nos rios das suas aldeias. Eu nadei. Minha filha não nadará; seus filhos e netos, a continuar assim, talvez sequer conheçam um rio. É bom reler Caeiro:

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. (…)
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe disso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio de minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se ao Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.”

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Esse post foi uma sugestão da Clarrissa Ramos, xará da minha Condessa.

Vinícius de Moraes, o poetinha, é mais conhecido por suas letras e músicas. No dizer de Wilson Martins, em texto para o “Jornal de Poesia“, “Em termos estritamente literários e até biográficos, sua carreira foi, de certo modo, invertida, passando pelas mutações assinaladas por José Castello: de poeta para músico popular, e de músico popular para showman, num plano inclinado de conseqüências perversas. A popularidade do último período, no bom e no mau sentido da palavra, obliterou por completo o poeta e sua obra, concentrando o interesse e respectiva celebridade nas atividades efêmeras do espetáculo“.

Pois é na fase “poeta”, ainda jovem, que publica, em 1933, seu primeiro livro, O Caminho para a Distância. Nele encontra-se o poema A Floresta, onde Vinícius descreve, em meio a tantas impressões de uma natureza exuberante, algo que talvez muitos hoje em dia não conheçam: “um gosto saboroso / De folha verde e nova e seiva bruta“.

A floresta

Sobre o dorso possante do cavalo
Banhado pela luz do sol nascente
Eu penetrei o atalho, na floresta.
Tudo era força ali, tudo era força
Força ascencional da natureza.
A luz que em torvelinhos despenhava
Sobre a coma verdíssima da mata
Pelos claros das árvores entrava
E desenhava a terra de arabescos.
Na vertigem suprema do galope
Pelos ouvidos, doces, perpassavam
Cantos selvagens de aves indolentes.
A branda aragem que do azul descia
E nas folhas das árvores brincava
Trazia à boca um gosto saboroso
De folha verde e nova e seiva bruta.
Vertiginosamente eu caminhava
Bêbado da frescura da montanha
Bebendo o ar estranguladamente.
Às vezes, a mão firme apaziguava
O impulso ardente do animal fogoso
Para ouvir de mais perto o canto suave
De alguma ave de plumagem rica
E após, soltando as rédeas ao cavalo
Ia de novo loucamente à brisa.

De repente parei. Longe, bem longe
Um ruído indeciso, informe ainda
Vinha às vezes, trazido pelo vento.
Apenas branda aragem perpassava
E pelo azul do céu, nenhuma nuvem.
Que seria? De novo caminhando
Mais distinto escutava o estranho ruído
Como que o ronco baixo e surdo e cavo
De um gigante de lenda adormecido.

A cachoeira, Senhor! A cachoeira!
Era ela. Meu Deus, que majestade!
Desmontei. Sobre a borda da montanha
Vendo a água lançando-se em peitadas
Em contorsões, em doidos torvelinhos
Sobre o rio dormente e marulhoso
Eu tive a estranha sensação da morte.

Em cima o rio vinha espumejante
Apertando entre as pedras pardacentas
Rápido e se sacudindo em branca espuma.
De repente era o vácuo embaixo, o nada
A queda célere e desamparada
A vertigem do abismo, o horror supremo
A água caindo, apavorada, cega
Como querendo se agarrar nas pedras
Mas caindo, caindo, na voragem
E toda se estilhaçando, espumecente.

Lá fiquei longo tempo sobre a rocha
Ouvindo o grande grito que subia
Cheio, eu também, de gritos interiores.
Lá fiquei, só Deus sabe quanto tempo
Sufocando no peito o sofrimento
Caudal de dor atroz e inapagável
Bem mais forte e selvagem do que a outra.
Feita ela toda de esperança
De não poder sentir a natureza
Com o espírito em Deus que a fez tão bela.

Quando voltei, já vinha o sol mais alto
E alta vinha a tristeza no meu peito.
Eu caminhei. De novo veio o vento
Os pássaros cantaram novamente
De novo o aroma rude da floresta
De novo o vento. Mas eu nada via.
Eu era um ser qualquer que ali andava
Que vinha para o ponto de onde viera
Sem sentido, sem luz, sem esperança
Sobre o dorso cansado de um cavalo.

Imagens e poema copiados do site oficial de Vinícius de Moraes, que vale a visita.

Frank Herbert tem sido considerado o primeiro escritor de ficção científica a considerar o tema
ecologia em suas obras. A par das questões políticas, econômicas e religiosas que servem de pano de fundo da história, a ecologia pode ser considerada, talvez numa leitura mais atual (não esqueçamos que Duna retrata uma época do nosso mundo onde as questões políticas – guerra fria -, econômicas – OPEP1 e petróleo – e religiosas – Concílio Vaticano 2º – dominavam inteiramente o espaço público mundial) o ponto central da obra.

O primeiro dos apêndices trata justamente da “Ecologia de Arrakis”. Abrindo o capítulo, lemos uma citação (tomada como se fosse de uma das personagens) que é quase a questão central da atual problemática envolvendo o meio ambiente e os seres humanos:

Além de um ponto crítico dentro de um espaço finito, a liberdade diminui à medida que os números crescem. Isso é verdadeiro para os seres humanos no espaço finito de um ecossistema planetário, assim como o é com relação as moléculas de um gás num frasco selado. A questão humana não é tanto quantos poderão sobreviver dentro do sistema, mas sim que tipo de existência será possível para aqueles que sobreviverem.

Somente agora, 40 anos passados, começamos a nos preocupar com “que tipo de existência será possível para aqueles que sobreviverem”. A manter-se o atual ritmo de crescimento da população mundial, necessariamente a liberdade irá diminuir e, mesmo que não tenhamos “sobreviventes” – no sentido de gente que sobrou de alguma catástrofe ambiental – a qualidade de vida irá piorar.

A pergunta central é: que tipo de existência queremos ter? E que gostaríamos que nossos descendentes tivessem? A resposta vai além do atual conceito de “sustentabilidade” – ser ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito – (e, por certo, muito além do tradicional conceito de “desenvolvimento sustentável”), pois, por exemplo, será socialmente justo estabelecer programas de controle da natalidade sem ferir a liberdade das pessoas em querer ter filhos?

Uma economia, nos moldes da que temos hoje em dia, para ser viável precisa de consumidores: quanto mais crianças, mais fraldas, mais…. e depois, quanto mais adolescentes, mais tênis, mais… e depois, quanto mais adultos, mais cigarros, etc… De outra forma, ser economicamente viável dentro do atual modelo, contraria todos os demais fatores que definem a sustentabilidade. Como resolver o conflito, quando sabemos que a economia é a base de tudo? Não haverá sociedade justa, cultura aceita e, menos ainda, ecologia correta, com esse modelo de economia.

Estamos nos aproximando perigosamente do limite. E não vemos mostras de que mudaremos nossa economia… A literatura já nos avisava disso há 40 anos…

1É o próprio Frank Herbert quem diz, nesse ensaio (em inglês), que a CHOAM é a OPEP. O ensaio, titulado “Dune Genesis”, é muito interessante para quem quiser saber como nasce uma obra literária. Duna, no caso.

otografia de Frank Herbert lincada do site oficial de Duna. O desenho, também do site, faz parte da galeria do artista Wojciech Siudmak.